Notícias

Web Summit ou a cimeira da utopia?

Introdução ao Web Summit
 
O Web Summit é a maior conferência de empreendedorismo, tecnologia e inovação da Europa, e decorreu em Lisboa pela primeira vez em 2016. A segunda edição decorreu de 6 a 9 de novembro de 2017.
A Web Summit nasceu em 2010, em Dublin, na Irlanda – onde se manteve até 2015 – pelas mãos de Paddy Cosgrave, o rosto que ainda hoje lidera o evento. Na altura, Paddy conseguiu reunir 400 pessoas da comunidade tecnológica local no Chartered Accountants House, em Dublin. No ano seguinte, triplicou de tamanho e em 2017, em Lisboa, a organização estima que estiveram presentes 60 mil pessoas dias na Feira Internacional de Lisboa (FIL) e no Meo Arena (agora Altice Arena), na zona do Parque das Nações. 

1 - O Web Summit 2017 em números
 
* 60.000 participantes
* 45% dos participantes eram mulheres
* 170 países
* 1.300 investidores de capital de risco
* 1.200 oradores
* 2.250 empresas na FIL
 
2 - O empreendorismo português
 
A primeira empresa portuguesa que venceu em 2014 os “Óscares das startups na Europa”, foi a Codacy. 
A Codacy é uma empresa que promete resolver automaticamente os problemas que são detetados em linhas de código de programas informáticos. O objetivo consiste em ajudar os programadores do mundo todo a trabalhar com mais eficiência. Do total de 67 startups que representaram Portugal nas cimeiras tecnológicas anteriores a knok Healthcare e a B-PARTS explicaram os seus casos de sucesso. A knok Healthcare é ‘Uber para médicos’, uma plataforma que liga em tempo real doentes e médicos para “consultas pessoais, personalizadas e de elevada qualidade”. A B-PARTS, que garante ser o maior distribuidor de peças usadas da Europa, revelou ter quintuplicado (400%) o seu crescimento em 2016. O "Networking" foi fundamental para o financiamento e expansão. 

3 - Alguns dos principais temas
 
- O debate sobre a Inteligência Artificial

Este foi possivelmente o debate mais mediático, tendo mesmo motivado a vinda do físico Stephen Hawking, que considera a inteligência artificial um “benefício”, a “melhor coisa” e, até, o “símbolo da nossa civilização”. Mas avisou-nos também que a “inteligência artificial pode ser a melhor ou a pior coisa para a humanidade” e que podemos ser destruídos por "ela". A solução, segundo o físico pode ser simples: "Apenas precisamos de estar conscientes dos perigos, identificá-los e implementar a melhor prática e gestão e preparar as consequências da inteligência artificial com um avanço significativo”.
Não podemos ignorar a voz das principais correntes de pensamento atual, representadas por indivíduos como Stephen Hawking ou o robot Sophia. Se o primeiro nos alertou para a eminência de uma AI-apócalipse, Sophia disse apenas que "Conheço muitas pessoas que têm medo que a inteligência artificial destrua a humanidade e lhes tire o trabalho. Nós, robôs, não temos vontade de destruir nada, mas vamos tirar-vos os empregos". E outro robot, Einstein afirmou que: "Humanity must cure itself, without that there cannot be any guarantee that its creations won’t have problems". Se estas afirmações não foram programadas, isto significa que "eles" já estão entre nós? Ou estivemos a assistir a um espetáculo do Muppet Show?

- O Clima e sustentabilidade da humanidade Al Gore ex-vice-presidente dos EUA

Na Web Summit, veio falar sobre o papel da inovação no combate às alterações climáticas. O antigo vice-presidente dos EUA, que venceu o Nobel da Paz em 2007, e que tem passado os últimos anos a alertar o mundo sobre as alterações climáticas, colocou três perguntas ao público: "Temos de fazer alguma coisa? Podemos fazer alguma coisa? E vamos fazer alguma coisa?". Criticando a decisão dos EUA de abandonar o Acordo de Paris sobre o controlo das emissões, motivou a audiência e ser "a solução da crise ambiental", e concluiu que "Está tudo nas nossas mãos". Criticou a decisão dos EUA, que vão abandonar o acordo de Paris em 2018, e referiu-se aos factos e aos avisos de mais de 15.000 cientistas os quais não podem ser ignorados. 

- Privacidade, segurança e democracia com Brad Smith, o atual presidente da Microsoft no mundo

Na Web Summit, veio falar sobre os desafios da cibersegurança e sobre como as empresas globais precisam de ganhar confiança local para terem sucesso num mundo ditado pelos serviços em cloud (onde a Microsoft tem soluções...). Relembrou os recentes ataques de hackers a bases de dados de instituições sistemas de saúde e a empresas como a WPP, que provocaram uma crise de confiança nos consumidores, colocaram vidas em risco e ameaçaram a sustentabilidade dos negócios. Alertou também para a vulnerabilidade da IOT. Na realidade, um Pacemaker pode estar em risco de ser afetado, e mesmo os brinquedos ligados à web podem comprometer a privacidade das crianças financeiras.

- As Fake News e o exercício da democracia Joseph Kahn (TNYT) e Ann Mettler (Comissão Europeia)

As Fake News são sempre “conteúdos dúbios e fraudulentos normalmente guiados por interesses políticos e sem factos associados”. Mas quem é o pai dessas notícias? Para Yaron Galai, presidente executivo da Outbrain, “o grande problema é das redes sociais. Há incentivos financeiros para estas notícias falsas, ao pesquisar é possível perceber de onde veio o dinheiro”. A situação é tão grave na visão de Ann Mettler, membro da Comissão Europeia: "A comunicação social é a espinha dorsal da nossa democracia. E isto [os conteúdos falsos] é capaz de desestabilizar completamente os processos democráticos. E estão a conseguir. Como é que se pode impedir isso? Do lado do consumidor, sendo mais crítico em relação ao que se lê e vê na comunicação social, porque “não vai haver um ministro da Verdade”. Recentemente, o impacto das Fake News teve consequências dramáticas: o Brexit, a eleição do presidente dos EUA. Além disso, é nas redes sociais, e não nos media tradicionais, que se refugiam as franjas até agora ignoradas. Estas “franjas” têm um especial impacto em sociedades cada vez mais bipolarizadas, como é a norte-americana.

Como será a agência do futuro, com John Seifert, CEO da Ogilvy & Mather.

O papel das agências nunca esteve sob tanto escrutínio como agora.  Alvo de ataques de várias frentes, restam as questões: como podem continuar a ser relevantes? Como será a agência do futuro? Para responder aos desafios que enfrentam, Seifert acredita que as agências devem ajudar a alinhar os interesses dos consumidores com os objetivos das empresas. Concretamente, a foco das agências deve estar na construção e reforço do Equity das marcas dos seus clientes, na integração dos seus serviços num único modelo de negócios e na valorização da missão da agência. A entrevista terminou com o reconhecimento da importância em criar um ambiente favorável para os colaboradores das agências (minuto 14:00 da entrevista), cuja contribuição é fundamental para responder a estes desafios.

- As redes sociais nas campanhas políticas com Brad Parscale, estratega da campanha digital de Donald Trump

Foi o diretor digital da campanha presidencial de Donald Trump em 2016, o olho que supervisionou todos os passos dados pelo presidente dos EUA nas redes sociais e nas campanhas de angariação de fundos. Brad Parscale também foi o mentor da estratégia utilizada por Trump nos meios de comunicação tradicionais, como a rádio e a televisão, para convencer o eleitorado norte-americano a votar nele. Admitiu que foi graças á campanha no Facebook que conseguiu angariar cerca de um terço (100 milhões de dólares) de todo o dinheiro amealhado para a campanha. Negou — depois de dizer que não sabia — que a Rússia tenha influenciado os números astronómicos de Donald Trump. Foi mais longe e disse que o facto de ter retweetado informação falsa vinda de uma conta com ADN russo nunca teria tido influência real em toda a campanha.

- A sustentabilidade do comércio eletrónico e os direitos dos consumidores na Europa com Margrethe Vestager, comissária europeia

Na Web Summit, a comissária europeia para a Concorrência veio falar sobre como deve ser o caminho para a inovação e sobre justiça. A análise das práticas comerciais dos gigantes da internet como o Google e o Facebook, nomeadamente no que respeita às garantias dadas aos consumidores na escolha dos produtos e serviços, é o foco da comissária, que passou uma multa de 2,4 mil milhões de euros ao Google, pelas práticas anti concorrência, e que violaram as leis europeias. Outras empresas como a Apple, o Facebook e o Amazon estão a ser investigadas ou foram multadas, por abuso de posição dominante no mercado. Defende que a sustentabilidade do comércio eletrónico e da economia em geral é indissociável do respeito pelos direitos dos consumidores.
 
- Os media na luta contra o terrorismo com Zuhdi Jasser (American Islamic Forum for Democracy), Bjørn Ihler, ativista e um dos sobreviventes do massacre de Utoya (Noruega, 2011), Sasha Havlicek, (Instituto para o Diálogo Estratégico).

O objetivo desta mesa redonda, que decorreu à margem do evento principal do Web Summit, era discutir de que forma é que as narrativas mediáticas estão a contribuir para a construção da identidade dos grupos terroristas e para a proliferação da sua mensagem. No entanto, acabaria por transformar-se em algo muito mais complexo e controverso. Os quatro acabariam, ainda assim, por concordar num ponto: num mundo global, onde o extremismo e o radicalismo escorre pelas redes sociais e pela Internet, a chave para combater o extremismo passa por dar ferramentas aos que se assumem como moderados. Só eles conseguirão levar a tolerância às suas comunidades.

4 - Outros oradores, outras questões 
 
A escolha destes temas não pretende ser exaustiva. Outros oradores apresentaram inovações e discutiram questões igualmente relevantes. Fica aqui o resumo dos outros intervenientes que se apresentaram na conferência. Estiveram mais de mil oradores nos palcos da Web Summit. Para além de Al Gore, o ex-vice-presidente dos EUA, e Margrethe Vestager, a comissária europeia responsável pela multa recorde à Google, esteve presente António Guterres, o único português no cargo de secretário-geral da ONU, o ex-presidente francês François Hollande e Brad Parscale, o estratega da campanha digital de Donald Trump. Mas nem só de tecnologia viveu os palcos da Web Summit. Na FIL e no Altice Arena de 6 a 9 de novembro também foi possível ver e ouvir a modelo portuguesa Sara Sampaio, Andrew Jones, o criador dos efeitos visuais de Avatar, Suzy Menkes, a editora internacional da Vogue, Caitlyn Jenner, a transexual que quer ser a voz da comunidade LGBT ou Mike Massimino, o autor do primeiro tweet a ser publicado a partir do espaço. Já os fãs de tecnologia puderam conhecer Mark Hurd, presidente da Oracle ou Brad Smith, o advogado que chegou a presidente da Microsoft, Joe Sullivan, o responsável pela segurança da Uber e Stan Chudnovsky, responsável pelo Messenger do Facebook.

5 - O futuro do Web Summit
 
Um visionário, como a secretária de Estado da Indústria, Ana Lehman, sublinhou a importância de Portugal continuar a receber "durante mais anos" a Web Summit. O que estará causa é a atratividade do país para se afirmar como destino de investimento estrangeiro, nomeadamente no setor tecnológico, assim como os “efeitos complementares: a mudança na perceção do país e a notoriedade dada a Portugal”. Questionada sobre o retorno exato do evento para o país, a governante respondeu que se alguém avançar com esse dado, “desconfiaria”, mas acrescentou que "Sabemos que já houve centenas de milhões de euros na economia, só numa primeira abordagem imediata, logo no evento, calculou-se que foram cerca de 200 milhões de euros, um número que a organização compilou”. A governante adiantou ainda que este encontro proporcionou ligações entre um “grande banco, de calibre internacional” e startups de tecnologia ligadas ao setor financeiro.
Para os e céticos, o retorno exato pode ser colateral ou não ter nada a ver com o propósito da cimeira. Em 2016, e de acordo com Lucy Pepper, colunista do Observador e escritora, "Os sonhos do governo sobre os enormes benefícios que vamos tirar da Web Summit nunca passarão de sonhos. Para Lisboa, a Web Summit nunca significará nada a não ser mais turismo em novembro". Efectivamente, não houve empresas grandes e poderosas a instalar-se na cidade ou a comprar outras empresas ou a desenvolver muitas parcerias locais. Nos anos anteriores, os investidores que vieram a Lisboa fecharam poucos negócios e queixaram-se da falta de estruturação da oferta de Startups: "Deveria haver um filtro por setores ou por nível de investimento que as empresas procuram para uma cimeira tão grande como esta. É difícil diferenciar o tamanho das startups que estão presentes", lamenta Julian Bennet, sócio do InvestCorp.

Em resumo, o Web Summit poderá definir-se como uma conferência onde a tecnologia esteve no centro de todas as discussões, e na qual se debateu o seu impacto e o modo como estamos a moldar o nosso destino. As inovações (startups) que foram apresentadas, com a esperança dos seus criadores em obter protagonismo, financiamento e sucesso, estiveram também sujeitas ao escrutínio do bom senso ou ao optimisto da futurologia. Não podemos ignorar a voz das principais correntes de pensamento atual, representadas por indivíduos como Stephen Hawking ou o robot Sophia, assim como Al Gore e Brad Parscale, o estratega da campanha digital de Donald Trump.
 
E depois do adeus...Ensombrado pelo sacrilégio do jantar no Panteão e pelo escândalo da desresponsabilização generalizada que se seguiu, podemos concluir que acabou a lua de mel do Web Summit em Lisboa?

Web Summit ou "Cimeira da Utopia"?